Transparência ofuscada

Há uns anos – ainda durante a minha vida de estudante – apanhei um Uber para ir a um jantar. Recordo que essa noite a foi presenteada com um intenso nevoeiro, que me deixou particularmente ansioso durante toda a viagem. Não se via para além dos 15 ou 20 metros, o que dificultou todo o trajeto, tendo sido uns longos minutos de viagem, carregados nervosismo, stress e inquietação.

Anos mais tarde, percebo que todas estas sensações tinham uma simples justificação: o desconhecido e a impotência de controlar a situação.

Metaforicamente, estamos todos sentados no banco dos passageiros do carro, enquanto o Governo conduz, conforme deseja, o carro da 22ª Legislatura, por uma estrada enublada que ninguém sabe bem o que acontece, por que acontece e, muito menos, aquilo que esperar.

Assistimos com demasiada frequência a situações inexplicáveis e incompreensíveis, que se escondem por trás da máscara do poder, fazendo ressurgir a expressão dos donos disto tudo. Já não nos chegava os jogos de bastidores entre empresários e políticos, que atuam no submundo da decência, jogando com os peões da sociedade, agora temos cada vez mais acentuado o submundo da política.

São políticos eleitos que promovem estas práticas nebulosas. Por eles, entre eles e através das ditas nomeações. Atuam em conluio, deixando todos os eleitores e cidadãos às escuras, sem saber o que acontece. Aqueles a quem deveriam prestar contas e respeitar, são manipulados pelo poder estabelecido. Vivemos uma grave crise de transparência. Esta que é a principal e mais relevante bandeira da democracia.

Façamos uma retrospetiva destes últimos anos:O caso de Tancos, a morte de Ihor Homenyuk, todos os casos EDP, BES e, mais recente, a TAP, a nomeação do coordenador Francisco Ramos para a Task-Force da Vacinação, a nomeação de Adão e Silva para comissário para os 50 anos do 25 de Abril, a rejeição de proposta do IL na Assembleia da Républica para uma plataforma de controlo do dinheiro proveniente do Fundo de Recuperação da União Europeia, para, meses mais tarde, o PS apresentar uma proposta muito idêntica e esta ser aprovada, os avanços e recuos nas medidas contra a pandemia, as mensagens  e contraditórias de figuras chave do Estado, os casos CabritaEnfim, poderíamos estar o serão todo a identificar casos em que, claramente, ficam coisas por esclarecer. Foquemo-nos nos casos mais recentes.

Eduardo Cabrita – o azarado ministro da Administração Interna – foi personagem principal num infeliz episódio que resultou na morte de um cidadão. Todo o contexto é estranho, desde logo por ser um atropelamento numa autoestrada. No entanto, como seria de esperar, muitas perguntas se levantam de imediato, procurando culpados, como a sociedade bem gosta. Ora, os media fizeram o seu trabalho e veio a público que a GNR fora proibida de efetuar qualquer investigação – informação já negada pela autoridade – e muitas outras questões surgiram na cabeça dos portugueses, que veem, uma vez mais, o Estado diretamente envolvido na morte de um cidadão. O Estado fez um lastimável comunicado e o ministro tardou em responder, dando oportunidade a que muito fosse falado. Este caso partilha de inúmeras características do caso Ihor Homenyuk e de Tancos: muitas (demasiadas) pontas soltas, imensas figuras a comentar e lamentar o acontecimento, cada um com a sua mensagem, a demora na tomada de posição dos governantes, sempre na busca de insana por culpados, e, no fim, apesar de qualquer resultado, ficam sempre questões “no ar”. Todas as horas entre o acontecimento até à primeiro comunicado do Estado, são horas de conspiração e especulação que, conhecendo a sociedade do seculo XXI, dificilmente se controlam.

Tudo isto são nutrientes para aqueles que procuram argumentação fácil para pôr em causa a democracia. É o estado a auto deturpar-se e a dar espaço para que outras forças venham para a rua e ganhem dimensões preocupantes.

A transparência está diretamente ligada à emergência de problemas de estabilidade política e social. Quando esta escasseia, é sinal de que algo não está bem. Qual será, afinal, a razão para não passar toda a informação relevante para o público? Deixo esta pergunta para o leitor responder. Do outro lado, consigo perceber que exista desconfiança, receio e desconforto com o facto de não saber o que aconteceu, o que acontece ou aquilo que aí vem. A insegurança que daí advém é demasiado perigosa para a sociedade.

É em tempos de insegurança que aparecem os grandes líderes que prometem proteger e lutar pelos seus. E todos sabemos onde acabam estas histórias.

Exige-se maior transparência ao Estado, maior celeridade na capacidade de resposta, menos tempo de antena inútil e mais eficiência nas ações.

Quem se esconde atrás do barulho das luzes é porque tem algo a esconder.

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.