Confinamento da Arte e da Cultura

“Há precisamente 1 ano, os milhares de profissionais do setor cultural, desde artistas a técnicos de som e iluminação foram os primeiros a sentir as consequências nefastas desta pandemia e serão certamente os últimos a voltar à normalidade, sem data prevista.”

Arte e a Cultura têm nas nossas vidas, o papel essencial na dimensão de produção de conhecimento intelectual e desenvolvimento da subjetividade, formando os nossos sentidos, a nossa consciência e o pensamento crítico, numa interpretação humana e civilizada.

Numa perspetiva emancipadora, permite que percebamos a realidade de forma sensível e, portanto, que tenhamos um olhar profundo sobre a mesma, percebendo-a não apenas para representá-la, mas sim para refletir sobre ela e intervir de forma criativa e autêntica para transformá-la.

Quando há 1 ano a pandemia passou a fazer parte das nossas vidas, uma boa parte do setor da cultura em Portugal já vivia uma certa turbulência, no que toca a uma distribuição mais justa e unânime, a nível financeiro, nas mais variadas áreas artístico-culturais.

Por outro lado, e com o cancelamento de todas as atividades culturais, acabou de certa forma por se expor a grande vulnerabilidade no Pelouro da Cultura, em que uma boa parte (para não dizer uma maioria esmagadora) dos profissionais envolvidos na produção cultural e artística tem vivido dias de grande amargura e incerteza no que toca ao futuro, sem apoios financeiros para a sua sobrevivência, evidenciando a sua condição de classe trabalhadora esquecida por parte do Governo.

Em Portugal, e um pouco por todo o mundo, muitos são os agentes culturais que há praticamente 1 ano não tem qualquer fonte de rendimento, sendo a sua grande maioria aqueles que atuam nos chamados “bastidores” do espetáculo.

Com este cenário desolador, a chegada da pandemia e as respetivas medidas de confinamento para o seu controlo, em especial a restrição à aglomeração de pessoas, acabaram por evidenciar e clarificar a importância da cultura no nosso dia-a-dia, no que toca ao convívio e afeto de se viver em sociedade.

Falando de um setor fortemente associado ao glamour e encanto, que move grandes valores monetários na nossa economia, a área da cultura viu exposta na sua base de sustentação, uma imensa massa de profissionais, muitos deles precarizados que se viram repentinamente sem as condições mínimas de sobrevivência.

A pandemia expôs e exacerbou ainda mais as desigualdades sociais no país, tanto nas suas consequências no acesso a direitos fundamentais de sobrevivência, como também no acesso à literatura, música, arte e atividades desportivas, tanto de uma maneira geral, como proveito individual, ou até mesmo como alavanca de desenvolvimento das capacidades humanas.

Enquanto que uma boa parte da população se encontra na exaustiva e acutilante linha da frente, no combate ao “bicho invisível”, a grande maioria têm a obrigação e o dever de cumprir as regras deste novo confinamento nas suas casas. Umas a ocupar o seu dia-a-dia nesta nova forma de trabalhar à distância (em teletrabalho), outras simplesmente dedicadas ao “ócio” confinado, ocupando o seu tempo com a leitura de livros, aprendizagem instrumental, ou mesmo na televisão e internet.

Com todas as privações a que fomos sujeitos, por força desta pandemia, vimo-nos obrigados a reorganizar muitas das formas de solidariedade de classe, trazendo criatividade para superar o isolamento, com especial destaque no setor da Cultura, mostrando que mesmo estando nós em isolamento, a arte ocupa um lugar necessário nas nossas vidas, para o encontro e partilha de opiniões, mesmo que à distância, e que essas práticas correntes necessitam de ser valorizadas e colocadas como dimensões estratégicas nessa “nova” reconstrução.

Face a este novo confinamento que voltou a isolar-nos ainda mais uns dos outros, estamos perante uma altura crucial que será decisiva sobre o próximo verão. Os números diários do Boletim da DGS até tem sido minimamente animadores (porém ainda longe do desejado), já o mesmo não se pode dizer em relação ao lento e demorado processo de vacinação, que segundo o Primeiro Ministro iremos alcançar cerca de 70% da imunidade no final do verão (ou seja, em finais de setembro), portanto, prevê-se um verão diferente do de 2020, porém um verão que certamente estará ainda longe da normalidade de outros anos.

O que ficará de tudo isto no pós-pandemia? Não se trata mais de uma escolha, mas sim de uma necessidade, sob o risco de deixarmos de existir. Precisamos de nos reinventar, de nos entendermos como seres interligados, habitantes de um planeta e responsáveis pelo rumo que tomaremos enquanto humanidade. Só assim a dita normalidade em que outrora vivíamos será possível de alcançar de novo.

Acredito muito que está colocada em nós, juventude e futuro do nosso país, a responsabilidade e possibilidade de nos reinventarmos como seres sociais, neste novo mundo das tecnologias, reconhecendo a nossa geração, como sendo uma nova referência na sociedade e nos valores éticos, que tenha o cuidado com a natureza e nos seus recursos da prática cultural do nosso “novo” quotidiano.

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