Quem é que já não aguenta um novo Confinamento? Todos! Mas deixemos de falar só dos lugares comuns e falemos de outros assuntos…

Depois do período de benevolência do Natal e do Ano Novo, preparamo-nos para dar as “boas-vindas” a um novo confinamento, com a anunciada duração mínima de um mês, ainda que as medidas, que implicarão necessariamente muitos encerramentos, venham a ser revistas de 15 em 15 dias.

Com esta nova realidade, que de novo já começa a ter pouco, uma vez que a COVID-19 foi declarada pela Organização Mundial de Saúde como pandemia internacional, no dia 11 de março de 2020, surge a questão de saber quem aguenta, quase passado um ano completo desde o primeiro isolamento comunitário a que fomos obrigados, um novo confinamento?

Os adultos conheceram uma nova realidade de trabalhar em casa; as crianças de estudar à frente de um computador, a que os pais antes restringiam o acesso; os negócios enfrentaram novos dilemas e, possivelmente, os piores dias desde que abriram “portas”; os profissionais de saúde são os “novos” heróis da sociedade – quando, justamente, sempre o foram –; os estudantes universitários vivem diferentes experiências que os inibem de conhecer os seus colegas e de vivenciar o verdadeiro espírito académico de outros tempos (não longínquos); os idosos sentem-se isolados do “mundo”, em geral, e dos seus mais queridos, em particular – penso que não peco por excesso quando digo que “a partir de 11 de março de 2020, aprendemos a viver de forma diferente!”. Resta saber, se estamos ensinados a viver desta forma.

Como facilmente se compreende, a pandemia Covid-19, desde o seu recente aparecimento, tem sido responsável por um impacto brutal nos alicerces de qualquer sociedade (i.e. naturalmente na saúde, mas também na comunicação, nos relacionamentos interpessoais, familiares, sociais, na mobilidade, no trabalho, na economia, na educação, entre outros).

Além dos famigerados impactos nefastos desta pandemia na economia mundial, é importante não esquecer – e falar (e atuar) alto e em bom som – sobre os impactos na educação de uma geração de crianças e jovens e na saúde mental das populações.

A velocidade instantânea de transmissão da informação, muitas vezes salvadora da tentativa de manter os padrões educacionais da geração aprendiz, suscita, por sua vez, nas populações sentimentos frequentes de medo, angústia, ansiedade, com implicações diretas e indiretas na saúde mental individual e social. Além destes, é óbvio o sentimento de solidão que estes confinamentos têm trazido às pessoas, como comprova a vitória da palavra “saudade” como a mais procurada pelos cibernautas no ano de 2020.

Para além da conclusão do estudo britânico intitulado “Associações bidirecionais entre Covid-19 e a desordem psiquiátrica” de que a população infetada com Covid-19 tem um risco acrescido de desenvolver doença ou perturbação mental nas semanas que se seguem à recuperação, resta-nos toda a população que não sendo infetada está há meses em isolamento social. Mas também os profissionais de saúde, sujeitos a condições de trabalho, algumas vezes, indignas, a elevados níveis de pressão, com risco da sua própria segurança – estão em risco permanente.

Os estudos publicados (Vide Afonso, Pedro, “O Impacto da Pandemia COVID-19 na Saúde Mental”, Revista Acta Médica Portuguesa – Revista Científica da Ordem dos Médicos) sobre o tema que aqui abordo baseiam-se em quarentenas de grupos pequenos, devido principalmente aos vírus SARS-CoV1, MERS-CoV, HINI e ao Ébola. No entanto, nunca se verificou uma quarentena massiva de milhões de pessoas em simultâneo, e sem um término à vista, como a que hoje a saúde mental enfrenta.

Se é verdade que o isolamento é importante para proteger a nossa saúde física, impedindo o contágio pelo vírus, também é verdade que este isolamento provoca, não só, riscos ao maior surgimento de doenças psiquiátricas, como faz emergir um maior risco de aumento da desigualdade social entre as crianças e jovens em idade escolar. Sabemos, infelizmente, que é inevitável que o isolamento em casa diferencei, em quantidade e qualidade, o acesso dos alunos a equipamentos tecnológicos, ao apoio humano e psicológico, à orientação vocacional, entre tantos outros aspetos que a Escola lhes dá diariamente …

É premente, urgente, crucial, mandatório… chamem-lhe o que quiserem, não esquecer estas áreas de atuação, sob pena de restringir as oportunidades de gerações durante gerações e regredirmos mesmo décadas no nosso desenvolvimento em comunidade.

Já existem estudos que comparam, com conclusões assustadoramente semelhantes, as consequências desta Pandemia mundial com a de uma Guerra mundial. É, portanto, mais importante que nunca a prevenção – e não apenas ao nível financeiro e económico, como todos os dias ouvimos falar, mas também em áreas mais esquecidas, propositadamente ou não, quais sejam as desigualdades sociais na educação e as doenças de saúde mental.

Fica a dúvida se teremos iniciado uma nova Era da História, com novos paradigmas – na forma de trabalhar, na forma de iniciar um negócio, na forma de demostrar rendimento, seja laboral, seja escolar, na forma de nos relacionarmos com o outro, na forma de abordarmos até os assuntos mais tabus, na forma de demonstrarmos afeto?

… E o apelo aos profissionais principalmente das áreas da Saúde e da Educação, mas também a todos os agentes com responsabilidade políticas e aos cidadãos (que somos todos!) com responsabilidades éticas, para que não esqueçam os temas das desigualdades sociais e da saúde mental em Era pandémica como a que vivemos – são mais importante que nunca!

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