A DESERTIFICAÇÃO DO INTERIOR

Muitas pessoas reclamam medidas radicais para recuperar o interior. E com razão. Porém, ninguém explica como se arranjaria condições financeiras para tal feito.

A desertificação e consequente perda de população no Interior é um dos grandes problemas que Portugal enfrenta, atualmente, devido às consequências que pode ter para a coesão nacional e para o desenvolvimento económico. No entanto, importa referir que este é também um dos problemas de mais difícil resolução e um dos que, para ser bem-sucedido, irá exigir sempre um esforço constante e grande pensamento estratégico.

Na população juvenil, na altura de ingressar no Ensino Superior, dá a ideia de que a saída do interior é a solução mais credível, achando até que a multidão das grandes cidades é o caminho mais sustentado a seguir. E os idosos. Resignam-se a viver cada vez mais isolados no local onde nasceram e cresceram, vendo a “emigração” do futuro para os grandes centros populacionais.

Se é verdade que o interior representa cada vez menos votos (e, por isso, os políticos pouco fazem para travar a desertificação dessa enorme zona), talvez no litoral comecem a aparecer votos de quem queira regressar ao interior, na procura de qualidade de vida.

Ora, no litoral, e em particular nas cidades de Lisboa e do Porto, as pessoas ficam cada vez mais congestionadas. Os engarrafamentos constantes no trânsito tornam-se quase permanentes e verdadeiros “atrasos de vida”. O afluxo de turistas estrangeiros – em si, algo positivo (não nos tempos atuais, face à crise pandémica que vivemos) – intensifica o congestionamento e, sobretudo, reduz a oferta e divulgação turística nas zonas no Interior.

No entanto, é importante referir que muitas pessoas que vivem no litoral comecem a ansiar por uma vida mais sossegada fora dele (onde por exemplo, neste ano, durante o verão, o turismo rural ganhou grande adesão). Porém, não se encontram grandes condições sustentadas para se habitar, de forma regular no Interior do País, muito por culpa dos serviços públicos do interior, aos poucos e poucos, se terem vindo a ser encerrados. O mesmo se diga dos postos dos CTT e dos balcões dos bancos. Quase não há ali estabelecimentos de ensino, pelo menos a partir do ensino primário (e, mesmo esse, vai desaparecendo). Nas aldeias ficam só os velhos, frequentemente isolados. Claro que há hoje televisão, internet, telemóveis…, no entanto, grande parte da população idosa que permanece no interior tem compreensíveis dificuldades em lidar com novas tecnologias, em particular com a internet.

Importa referir que, pese embora existam hoje algumas universidades e institutos politécnicos no interior e que isso é extremamente positivo para as regiões envolventes, não é suficiente para “prender” os mais jovens ou mesmo ser cartão de visita para famílias se mudarem para o Interior. É importante aliciar os grandes empresários a investir no Interior, criando condições para a criação de postos de trabalho. É emergente criar sustento no Interior, alienado às excelentes condições de Fauna e Flora de que goza o Interior, face às grandes cidades.

Ora, numa altura em que os serviços públicos que já existem no Interior lutam com grandes dificuldades financeiras para recrutar pessoal e adquirir equipamentos – o Serviço Nacional de Saúde (SNS), por exemplo – é uma fantasia considerar que existirá dinheiro, agora e no futuro próximo, para fazer regressar ao interior os serviços públicos encerrados, as escolas, os bancos, os correios, etc.

Muita gente reclama medidas altamente radicais, em prol da recuperação do interior, e com razão. Ninguém explica, porém, como se arranjaria dinheiro para um tal radicalismo. Por isso continuaremos com medidas tímidas e algo limitadas para evitar o deserto no interior. É melhor do que nada, mas convém não alimentar ilusões, de que as coisas vão ficar bem a curto prazo.

Em suma, e em jeito de conclusão, atrevo-me a dizer que, a verdadeira qualidade de vida existe mesmo no Interior, no alto do seu esplendor e ao Natural.

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