Não haverá vacina para a saúde mental

Nos últimos tempos temos ouvido falar bastante da importância da saúde mental e dos graves problemas do foro psicológico que uma grande percentagem da sociedade apresenta. Mas não ouvimos falar disto porque o governo apresentou um pacote de medidas brutal que nos vai ajudar nisto, não. Chegou-nos aos ouvidos através das piores notícias que se podem dar,  como a de Pedro Lima, que deixou o país em choque e num alerta momentâneo para um problema que vive connosco desde sempre (mas que se encontra a crescer a um ritmo preocupante).

Não sou a pessoa mais indicada para falar dos problemas relacionados com a saúde mental em si- não é, de todo, a minha “praia” e, felizmente, até agora, consegui ter uma relação de amizade com a minha ansiedade. Mas é um assunto que tem de ser discutido, trabalhado e estudado.

Somos a geração conhecida pelo ritmo alucinante, que vivemos no e para o nosso emprego. É-nos exigido ou, muitas vezes, imposto por nós próprios, que deixemos a nossa vida pessoal para segundo plano e, consequentemente, a saúde, e em concreto, a saúde mental também.

A viver em pleno estado pandémico, muitos de nós ficámos em regime de teletrabalho e a situação agravou-se: Agora não há desculpas, estamos em casa, à distância de um clique, é difícil desligar.

Face à pandemia, a OMS alertou para o risco de aumento dos transtornos mentais- é importante falar disto.

Muitos de nós, ficámos fechados em casa meses, deixámos de ter rotinas, reduzimos o contacto com os nossos amigos e familiares e, para muitos, o trabalho de equipa passou a ser remoto e a troca de ideias, que antigamente poderia ser constante, passou a ter hora e plataforma marcada.

Mas os problemas vão muito além disto.

Os nossos profissionais de saúde estão a ser submetidos a elevados níveis de stress e ansiedade, com a pressão associada à tarefa que têm nas mãos e as horas de trabalho a que estão sujeitos. As vítimas de violência doméstica passaram, inevitavelmente, mais tempo em casa, o que agravou a sua situação, e os idosos foram expostos a situações de total isolamento, com o distanciamento a que foram obrigados.

A situação pandémica que estamos a viver apanhou-nos de surpresa e provocou um grande impacto nas economias mais frágeis- como sempre, a nossa. A insegurança económica levará, sem qualquer dúvida, a um agravamento da saúde mental para todos aqueles que temem a diminuição de rendimentos ou o desemprego.

Segundo dados da OMS, os sintomas de pânico e angústia aumentaram 35% na China, 60% no Irão e 40% nos Estados Unidos. Entre os profissionais de saúde, de acordo com um estudo do Canadá citado pela OMS, quase metade dos inquiridos (47%) declarou que precisava de apoio psicológico, enquanto na China 50% sofriam de depressão, 45% de ansiedade e 34% de insónia.

Espera-se uma nova vaga da pandemia e a situação nao estará resolvida até que a vacina ideal seja produzida e administrada a toda a população. A capacidade de adaptação e de resposta a esta nova realidade é ditada pela nossa mente- que está fragilizada.  Em 2018, em Portugal, venderam-se mais de dez milhões de embalagens de ansiolíticos e quase nove milhões de antidepressivos, e já nessa altura eramos o 5.º país da OCDE com o maior consumo per capita de antidepressivos, apresentando o dobro de taxa de consumo de diversos países europeus.

Contudo, as necessidades ligadas à saúde mental não estão a receber a atenção necessária e, novamente, está a ser deixada para segundo plano. Mas mais do que um problema de falta de políticas e de meios adequados, é um problema social: as doenças mentais continuam a ser banalizadas.

Li recentemente que a saúde mental está extremamente relacionada com a forma como a sociedade valoriza o papel do individuo. E, para isto, é certo que não haverá vacina que nos salve.

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