Centeno, Ronaldo das explosões de interesses

A política moderna é feita disto: de perceções precoces, de opiniões, de factos simples que os media noticiam e as pessoas partilham de imediato e de forma pouco honesta. A desinformação constrói-se assim, com a facilidade do imediato. A verdade e os factos distanciam-se da simplicidade da matéria das opiniões, desde logo pela sua complexidade.

Ora, isto conduz-nos ao fundo de uma questão muito atual: foi Mário Centeno um bom Ministro das Finanças? É legitimo que se o afirme, mas será mesmo o Ronaldo das Finanças? Já o disse e volto a dizer, é uma afirmação pouco legítima, tal como a altamente exagerada unanimidade em torno do seu brilhantismo como Ministro.

Vamos a factos: a conjuntura económico-financeira europeia bateu níveis de confiança de entre décadas; uma taxa de juro artificialmente controlada pelo Super Mário Draghi; os dividendos do Banco de Portugal (BdP) mais que triplicaram de 202 milhões de euros, em 2013 para 644 milhões de euros, em 2018. O trabalho de qualquer Ministro das Finanças é fácil, quando a onda de crescimento económico enche os cofres do Estado em milhões de receita extra e é acompanhada pelo todo-poderoso BCE a comprar dívida, distribuindo os seus ganhos ganhos de volta ao Estado Português via dividendos do BdP.

Nos últimos dias, o nosso PM e PR abriram caminho a Mário Centeno Governador do BdP, sem verem suscitados “problemas” nesta transição. Segundo a “opinião” dos nossos Chefes de Executivo e de Estado, não existem incompatibilidades, pois nem seria a primeira vez que ocorreria tal transição na mesma legislatura. Mas vamos a factos: portanto, assumindo o cargo de Governador do BdP, o ex-Ministro das Finanças terá um conflito de interesses com o órgão de fiscalização e auditoria, que o próprio nomeou enquanto Ministro; o mesmo conflito terá com alguns membros do conselho consultivo do BdP, que também o próprio nomeou; Centeno teve responsabilidades nas resoluções do Novo Banco e do Banif e terá por isso, um conflito de interesses ao ter de avaliar possíveis injeções de capital do Fundos de Resolução, nestes bancos.

Vejamos, uma instituição que se quer técnica e ímpar de viés ideológico e despartidarizado, de forma a que esteja garantido um papel de supervisão independente, não pode estar sujeita a tal promiscuidade. Porque bom, se isto não é um conflito de interesses, só pode ser uma explosão de interesses.

 João Couto

 j_joaocouto@hotmail.com

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