Dia de (um novo) Portugal

Hoje tinha pensado em escrever sobre a importância de sermos moderados na ação e tolerantes no pensamento, isto a pretexto dos tempos estranhos que vivemos, onde os populismos destroem as democracias e os oportunismos desenterram o racismo.

Mas, um episódio que vivi hoje mesmo, 10 de junho de 2020, levou-me a escrever sobre um tema que todos bem conhecemos e que teima em ser o nosso fado. Crise. Crise que passou, crise que voltou, crise que já faz vítimas silenciosas.

Estava hoje à tarde sentando numa esplanada no Oriente, em Lisboa, e em pouco mais de meia hora fui abordado por várias pessoas, em momentos distintos, a pedir “uma moeda”. Das 7 ou 8 de pessoas que me foram abordando, somente uma era uma senhora idosa, que se percebia ser um caso de pobreza crónico, certamente antigo. Todos os outros eram raparigas e rapazes, sobretudo portugueses, mas também imigrantes. Todos jovens! Todos envergonhados, transmitindo a sensação de serem novatos naquelas lides.

Sinais preocupantes dos tempos que atravessamos, sendo estas as primeiras vítimas silenciosas da crise económica e financeira que só agora está a recomeçar.

Não sei o que terá acontecido a estes jovens para estarem nesta situação, mas arrisco-me a tentar adivinhar. Possivelmente jovens com trabalhos precários ou sazonais, quem sabe para suportar os seus estudos, que viram as entidades patronais a fechar as portas e a prescindir dos seus serviços. E ficaram assim, ao Deus dará, desamparados, desprotegidos, esquecidos.

Mais uma vez os jovens são vítimas da crise. Com trabalhos precários; salários baixos quando comparados com a média dos salários de há 20 anos; incerteza quanto ao destino dos seus descontos, que podem não garantir uma pensão condigna, ou simplesmente não garantir uma pensão, quando chegarem à idade para tal; falta de expectativas quanto ao futuro; ausência de condições para constituir família.

Hoje mesmo o Cardeal José Tolentino de Mendonça no seu (maravilhoso) discurso por ocasião das comemorações do 10 de junho, lembrou os jovens adultos, com menos de 35 anos, que pela segunda vez em poucos anos enfrentam uma crise.

E obviamente que os responsáveis por esta castração do futuro dos jovens de hoje não são as entidades patronais, que anos após anos, dias após dias, tentam sobreviver, asfixiadas pela carga fiscal e, muitas vezes, pagando para trabalhar. O problema está nos erros do passado que hipotecaram todo um país e que nos colocam mais suscetíveis a qualquer problema que surja, neste caso à crise Covid.

João Antunes dos Santos

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