A triste memória de Pedrogão

Naquele inicio de noite o PSD organizara um jantar de pré-campanha em Ansião. As mensagens sobre um incêndio nos concelhos vizinhos começaram a chegar. Percebeu-se que era grave. Interrompeu-se o jantar, num clima de enorme ansiedade.

Cá fora, a JSD distribuía às pessoas que chegavam ao Parque Empresarial do Camporês, fugindo do incêndio, tudo aquilo que conseguiu arranjar. Água, pão, fruta, foram retirados das mesas e entregues a quem precisava.

A noite seria longa, horrenda e trágica. Com o passar das horas a dimensão dramática do incêndio contava-se em mortes, em vidas devastadas, em famílias destruídas.

E o inferno não tinha fim. A incredulidade tomou conta do País. Não se queria acreditar que tal desgraça fosse possível. E a pergunta imperativa repetia-se: o que estava a falhar?

No dia seguinte, ao final da manhã, dirigi-me a Pedrogão para me encontrar com os meus amigos deputados Margarida Balseiro Lopes e Pedro Pimpão, no comando operacional. À chegada ao concelho o insólito aconteceu. Com a boa vontade da GNR, passei algumas barreiras que delimitavam a zona ainda em chamas. Foi-me dito que seguisse um carro da GNR que se encontrava na berma da estrada. Trocadas algumas frases percebeu-se que, afinal era a brigada da GNR, com reforços vindos de fora, que tinha que nos seguir porque não sabia onde ficava o posto territorial de Pedrogão. Mal sabia eu, naquele momento, que este pequeno episódio era o menor de todas as descoordenações que haveríamos de testemunhar.

No comando operacional vivia-se o caos. As pessoas amontoavam-se, sem função nem tarefa definida. Deambulava-se num espaço desorganizado, onde qualquer comunicação banal era difícil.

No interior de uma viatura estava instalada uma “sala de situação”. Responsáveis políticos e técnicos entravam e saiam sem que se percebesse quem sabia o quê, quem fazia o quê, sobre o que se estava a passar.

A dado momento surgiu no grupo de pessoas em que me encontrava uma mulher, a correr, agitada, com um telemóvel na mão. Do outro lado da linha estava um bombeiro que lhe ligara do inferno de chamas e que pedia mantimentos e reforços, quase vinte e quatro horas depois do inicio do incêndio. Era mais uma prova da descoordenação total que se vivia naquele território.

Com o passar das horas uma nuvem de fumo negro abateu-se sobre a zona onde estava instalado o comando operacional. O fogo não chegou lá, mas tornou-se evidente a vulnerabilidade daquele espaço, de que o problema maior era o das comunicações. Como foi possível que alguém pensasse que era possível controlar um incêndio sem conseguir comunicar com os bombeiros que, no terreno, arriscavam a vida?

Quem por ali passou nunca esquecerá o que viu. Nunca esquecerá a tragédia que se viveu, a impotência que se sentiu, a incompetência que se observou.

No dia seguinte, em Lisboa, integrei a delegação do PSD que reuniu com a direção e com o comandante operacional nacional, na sede da Autoridade Nacional de Proteção Civil. O que ali se passou foi simplesmente inacreditável. Ninguém, mas mesmo ninguém, sabia explicar o essencial do que tinha acontecido. Particularmente chocante foi a total incapacidade de explicar o acidente que envolveu uma viatura civil e um carro dos bombeiros que levou para a morte do bombeiro Gonçalo. Rui Esteves, que durante o incêndio nunca se deslocou ao terreno, não sabia explicar. Não fazia ideia. Não tinha entendido o óbvio. Foi preciso esperar pela carta aberta publicada no Expresso pela mulher de Rui Rosinha para termos a confirmação daquilo que uma nação inteira suspeitava.

Rui Esteves só tinha aparecido para a fotografia. No funeral do Gonçalo.

Desde então muitos debates se travaram. Muitas perguntas se fizeram que permanecem sem resposta. Muitos relatórios se escreveram que, se algum mérito tiveram, foi o de porem a nu o enorme falhanço do Estado na prevenção, na coordenação do combate e na proteção das pessoas.

Dois anos depois, as razões da nossa mágoa permanecem. Aos motivos iniciais somam-se agora a fraude no processo de reconstrução das casas e a vergonha pela forma como se deixaram degradar e desviar os donativos dos portugueses.

Dois anos depois, a dor não passa.

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